Assinaturas no Tempo | Randy M. Ataíde
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Há trajetórias que não se constroem em linha reta. Desenvolvem-se em camadas, feitas de experiências distintas que, ao longo dos anos, se entrelaçam e revelam um sentido mais profundo. A vida de Randy M. Ataíde é uma dessas histórias.

Com mais de meio século de percurso profissional, Randy atravessou universos aparentemente paralelos, da Marinha dos Estados Unidos ao direito, da teologia à academia e, mais tarde, ao investimento e ao desenvolvimento de projetos. Ainda assim, quando fala sobre liderança, não começa por cargos ou conquistas. Começa pelas pessoas.
Ao revisitar o seu percurso, reconhece que os momentos verdadeiramente estruturantes raramente se anunciaram com grandiosidade. Pelo contrário, surgiram sob a forma de gestos breves, quase invisíveis no instante em que aconteceram, mas que o tempo viria a revelar como decisivos na construção do seu olhar sobre si próprio e sobre o mundo.
Recorda, em particular, a fala curta de um oficial após um exercício físico particularmente exigente. Não foi um discurso, nem uma exortação. Foi apenas uma frase, lançada no momento certo, com a leveza de quem talvez não soubesse o peso que transportava. “Foi um comentário breve”, lembra, “mas despertou em mim uma confiança que eu ainda não tinha reconhecido.”
Já mais tarde, no final do seu percurso universitário, surgiram outras palavras, igualmente simples, vindas de colegas que, quase em tom casual, lhe sugeriram a possibilidade de ter perfil para a advocacia, uma ideia que nunca tinha atravessado o seu próprio pensamento. E, no entanto, bastou surgir vindo de outro olhar para que começasse, lentamente, a ganhar lugar dentro de si.
Estes momentos, aparentemente periféricos, revelam-se, com o tempo, como pontos de viragem silenciosos. Mostram como o percurso humano raramente é apenas autodeterminado, é também tecido por olhares alheios e frases soltas.
Já no universo do investimento, o contacto com profissionais mais experientes aprofundou essa perceção de forma ainda mais exigente: a de que o conhecimento não se encerra, nem se possui em definitivo. Ele permanece sempre inacabado, exigindo uma postura de abertura contínua, quase uma disciplina da curiosidade.
Ao longo dos anos, Randy manteve essa curiosidade como princípio estruturante, deslocando-se entre áreas do saber com uma naturalidade que não procura dispersão, mas ampliação de sentido. Como sintetiza, “o mundo é um lugar extraordinário, se estivermos dispostos a ouvir e a aprender”.
É a partir dessa mesma disposição para observar, compreender e integrar perspetivas diversas que se torna particularmente relevante a sua experiência enquanto professor de empreendedorismo, onde acompanhou várias gerações de jovens na transição entre ideias e a tentativa concreta de as transformar em projetos viáveis. Esse contacto prolongado com diferentes perfis e motivações permitiu-lhe, ao longo do tempo, reconhecer padrões recorrentes na forma como se constrói, e também na forma como se falha a criação de uma empresa.
Um dos equívocos mais frequentes surge precisamente na forma como se interpreta o ponto de partida: a tendência para confundir o impulso criativo inicial com a capacidade efetiva de sustentar algo no tempo. Na leitura de Randy, iniciar um projeto pode ser um gesto profundamente individual, quase intuitivo, mas desenvolver uma empresa implica uma natureza completamente distinta do esforço. “É impossível construir uma empresa sem depender de outras pessoas”, explica. A verdadeira construção acontece quando se passa da ideia à cooperação, quando se reconhecem limitações próprias, se valorizam competências alheias e se cria espaço efetivo para que outros participem no crescimento do projeto.
Outro erro recorrente manifesta-se na escolha de equipas demasiado homogéneas, marcadas por formas de pensar excessivamente semelhantes. Na sua perspetiva, as organizações mais sólidas não são aquelas onde reina a uniformidade, mas sim aquelas onde diferentes perspetivas coexistem e se desafiam mutuamente. A diversidade de pensamento não constitui um obstáculo; antes representa uma das principais fontes de resiliência e inovação de qualquer projeto coletivo.
É precisamente a partir desta atenção à forma como se constroem estruturas duradouras, mais do que apenas à sua aparência imediata, que se torna possível compreender uma das influências menos evidentes, mas mais estruturantes, na sua visão sobre investimento e crescimento empresarial: a agricultura. Tendo crescido numa região rural da Califórnia, habituou-se desde cedo a um tipo de temporalidade distinta, onde as decisões são tomadas num presente cujos resultados apenas se revelam anos mais tarde. Esse contacto com a lógica do tempo imprimiu-lhe uma noção particular de paciência e continuidade.
No universo empresarial contemporâneo, onde muitas decisões tendem a ser orientadas pela urgência do imediato, Randy procura recentrar a atenção no que considera essencial: aquilo que sustenta o crescimento ao longo do tempo. Para si, os primeiros investimentos de uma empresa raramente se traduzem em elementos visíveis ou imediatamente reconhecíveis; concentram-se antes nos sistemas, nos processos e, sobretudo, nas pessoas que lhes dão consistência.
“Se a base estiver bem construída”, observa, “o resto terá condições para crescer”.
Para ilustrar esta ideia, recorre frequentemente a uma expressão latina herdada da tradição da engenharia romana: sublato fundamento cadit opus. A ideia é simples, mas estrutural: quando o fundamento desaparece, toda a estrutura acaba inevitavelmente por ruir. Na sua leitura, esta metáfora mantém uma atualidade particularmente exigente, lembrando que nenhum crescimento pode ser verdadeiramente sustentável sem bases sólidas que o suportem.
Essa mesma atenção ao que sustenta, ao que, mesmo invisível, determina a consistência do todo, estende-se também à forma como observa os lugares e os processos de transformação que neles ocorrem ao longo do tempo. A sua relação com Portugal começou há mais de duas décadas e foi-se consolidando de forma progressiva, num percurso feito de proximidade crescente e de descobertas sucessivas. Foi nesse contexto mais alargado que acabou por encontrar Alcácer do Sal.

Para um olhar exterior, poderia parecer uma escolha inesperada no percurso de alguém com experiência internacional. Mas para Randy havia ali uma familiaridade imediata, ainda que difícil de verbalizar. A paisagem tranquila, o ritmo mais contido e a relação próxima entre as pessoas evocavam-lhe dimensões da sua própria origem, criando uma sensação de continuidade mais do que de contraste.
Ao mesmo tempo, identificou naquele território algo que já tinha observado anteriormente nos Estados Unidos: o modo como, quando determinadas zonas costeiras atingem níveis elevados de valorização, o crescimento tende a deslocar-se para áreas próximas, ainda acessíveis, mas com elevado potencial de desenvolvimento. Nesse enquadramento, Alcácer do Sal surgia como um espaço particularmente interessante, pela sua localização, história e qualidade de vida.
Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de recuperar um edifício histórico que viria a dar origem à Mansão do Passeio. O objetivo inicial era relativamente simples: devolver funcionalidade e vida a uma casa que permanecia desocupada há vários anos. A estrutura do edifício, porém, revelava-se sólida e bem preservada, permitindo imaginar desde cedo a possibilidade de um novo ciclo.
Com o tempo, o projeto foi ganhando outra densidade. À medida que o contexto envolvente evoluía, também a leitura do espaço se foi ampliando. Num período em que o setor do alojamento local se tornava progressivamente mais competitivo, tornou-se claro que existia ali uma oportunidade distinta: a de criar um lugar orientado para o encontro entre pessoas, empresas e projetos, mais do que para uma utilização exclusivamente habitacional ou turística.
Hoje, a Mansão do Passeio assume-se como um espaço de trabalho, colaboração e partilha, onde diferentes iniciativas se cruzam e onde novas ideias encontram condições para se desenvolver. Sem perder a ligação ao território, procura também acompanhar uma visão mais ampla do seu futuro, em que o desenvolvimento de Alcácer do Sal possa resultar da articulação entre diferentes pontos da cidade, da frente ribeirinha às zonas comerciais, passando pelos espaços públicos que estruturam a vida quotidiana da comunidade. Nesse equilíbrio, a Mansão procura assumir um papel discreto, mas significativo, na vitalidade do lugar onde se insere.
No final da conversa, quando lhe é pedido um conselho para quem inicia hoje o seu percurso profissional, a resposta surge sem hesitação: “procurem estar perto de pessoas inteligentes”. Para Randy, a exposição constante a diferentes formas de pensar, a escuta ativa e a curiosidade contínua são alguns dos motores mais consistentes de crescimento.
Porque, como refere, “em qualquer idade, há sempre muito mais para aprender”.

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