top of page

Pinhão de Alcácer do Sal: O Segredo Mais Bem Guardado de Portugal

Há um produto português que já valeu 120 euros por quilograma, que é exportado para Itália e Espanha como matéria-prima premium, que os navegadores levavam nas caravelas dos Descobrimentos pela sua capacidade de conservação e que a maioria dos portugueses nunca associa à região onde é produzido. O pinhão de Alcácer do Sal é, provavelmente, o segredo mais bem guardado da economia portuguesa.



Chamam-lhe "ouro branco". Chamam-lhe "caviar da floresta". E no entanto, quando se pensa em Alcácer do Sal, pensa-se no castelo, no rio Sado, na proximidade à Comporta. Raramente se pensa no fruto seco mais caro do mundo que nasce nos pinhais que rodeiam a cidade.


Este artigo é uma tentativa de corrigir essa injustiça.


Mais de metade do pinhão português vem de Alcácer do Sal


Os números são claros. Segundo um estudo da Associação de Produtores Florestais do Vale do Sado (ANSUB), mais de 50% da produção nacional de pinhão concentra-se nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola. Portugal tem cerca de 78 mil hectares de pinheiro manso e mais de 60% dessas árvores ficam localizadas na região de Alcácer do Sal.


Não estamos a falar de uma produção marginal. Os quatro concelhos do litoral alentejano  Grândola, Alcácer do Sal, Santiago do Cacém e Sines representam 45% de toda a área nacional de pinheiro manso. E é em torno de Alcácer do Sal que, historicamente, a qualidade do pinhão é superior, segundo os próprios transformadores. A proximidade ao mar cria condições climáticas que reduzem o impacto de pragas e favorecem o desenvolvimento da semente.


O concelho de Alcácer do Sal possui, aliás, a maior extensão de pinhal manso da Europa. Uma floresta de pinheiros-mansos que se estende por milhares de hectares, visível da estrada nacional e das aldeias do interior do concelho, e que constitui o ecossistema base de toda esta economia.



Um fruto que já valeu 120 euros por quilograma


O pinhão não é um fruto seco qualquer. É o mais caro do mundo.


As cotações têm oscilado significativamente ao longo dos anos. Em 2013, o pinhão nacional atingiu valores históricos de 100 a 120 euros por quilograma. Em 2020, o valor máximo mais frequente nos mercados de produção situou-se nos 68,7€/kg, segundo o Sistema de Informação de Mercados Agrícolas (SIMA). Em 2023, as cotações estabilizaram perto dos 50€/kg.


Para contextualizar: um quilograma de amêndoa custa cerca de 8-12€. Um quilograma de noz, 6-10€. O pinhão vale cinco a dez vezes mais. E o pinhão português proveniente do pinheiro-manso, Pinus pinea é considerado o de melhor qualidade do mundo, superior ao pinhão asiático (de espécies como o Pinus koraiensis da Coreia ou o Pinus gerardiana do Paquistão) em sabor, textura e composição nutricional.


Existe, aliás, um pedido de registo de DOP  Denominação de Origem Protegida, para o Pinhão de Alcácer do Sal, promovido pela UNAC (União da Floresta Mediterrânica), o que reconheceria formalmente a singularidade e a qualidade superior deste produto específico.


Da pinha ao prato: um processo que não mudou assim tanto


O pinhão é a semente que se encontra dentro das pinhas do pinheiro-manso. O processo de obtenção, embora hoje parcialmente mecanizado, mantém uma essência artesanal que remonta a séculos.


A campanha de apanha decorre entre 1 de Dezembro e 31 de Março. Os apanhadores sobem aos pinheiros em muitos casos usando instrumentos primitivos que pouco mudaram ao longo das gerações e colhem as pinhas manualmente. Cada árvore tem, em simultâneo, pinhas com três idades diferentes, o que exige experiência para seleccionar as que estão prontas.


Depois de colhidas, as pinhas são colocadas ao sol em eiras para abrir naturalmente, ou forçadas a abrir em fornos de calor seco ou vapor de água. São depois agitadas para soltar o pinhão em casca, que é submetido a britagem manual ou mecânica e separado das cascas por crivos. O miolo é lavado, seco em estufas de ar quente (frequentemente alimentadas pela combustão da própria casca do pinhão e das pinhas), passa por separadores electrónicos para garantir uniformidade de cor, e é finalmente sujeito a escolha manual.



Este processo é registado pela Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural como modo de produção do Pinhão de Alcácer do Sal um produto reconhecido como Produto Tradicional Português.


Um dado que ilustra a preciosidade do produto: em média, três pinhas pesam um quilograma e rendem apenas cerca de 40 gramas de pinhão. O rendimento médio da pinha é de 2,1 a 2,5% ou seja, de cada 100 quilogramas de pinhas colhidas, obtêm-se pouco mais de 2 quilogramas de miolo. É fácil perceber porque lhe chamam ouro branco.


O paradoxo: Portugal produz o melhor, mas quase não o come


Aqui reside o grande paradoxo do pinhão de Alcácer do Sal. Cerca de 95% da produção nacional é destinada à exportação. Os principais compradores são Itália e Espanha, que adquirem o pinhão com casca, procedem à transformação nas suas indústrias e vendem-no depois como produto italiano ou espanhol. O pinhão português perde visibilidade no mercado internacional é absorvido como matéria-prima anónima.


Pior ainda: Portugal acaba por importar pinhão de Espanha que, em muitos casos, é de origem chinesa, turca ou paquistanesa, proveniente de espécies diferentes de pinheiro e com qualidade inferior. O consumidor português compra no supermercado pinhão que pode não ser português enquanto o melhor pinhão do mundo sai do país em casca.


É uma história que se repete noutros produtos portugueses (a cortiça, o azeite, o vinho a granel), mas que no caso do pinhão é particularmente dolorosa: o produto é caro, é escasso, é de qualidade mundial, e quase ninguém em Portugal sabe que a capital deste ouro branco fica em Alcácer do Sal.


Pinhoadas e doçaria: a herança gastronómica do pinhão


Se a produção é invisível para o país, a gastronomia local mantém viva a relação com o pinhão. Em Alcácer do Sal, o pinhão é ingrediente central na doçaria tradicional e em muitas receitas salgadas.



As pinhoadas são o doce mais emblemático: um preparado de pinhão com mel e açúcar, moldado em formas tradicionais, que se encontra nas pastelarias e mercearias da cidade. A receita é antiga, transmitida de geração em geração, e cada doceira tem a sua variante.


Mas o pinhão aparece também em saladas, em pratos de carne, em recheios de borrego, e até em sobremesas contemporâneas que chefs da região têm vindo a desenvolver. A sopa de beldroegas com pinhão, a açorda alentejana finalizada com pinhão torrado, e o arroz doce com pinhão são exemplos de como este fruto permeia toda a cozinha do concelho.


A tradição é, aliás, anterior aos Descobrimentos. Os navegadores portugueses levavam pinhão nas viagens ultramarinas pela sua elevada capacidade de conservação e pelo seu valor energético um alimento compacto, nutritivo e durável que sustentava tripulações em meses de mar.


As ameaças: pragas, concorrência e invisibilidade


O futuro do pinhão de Alcácer do Sal não é garantido. Existem três ameaças sérias.


A primeira é biológica. O percevejo Leptoglossus occidentalis, conhecido como sugador de pinhas, tem provocado danos significativos nos últimos anos, reduzindo o rendimento das pinhas e afectando a qualidade da semente. A praga, originária da América do Norte, chegou a Portugal no início do século XXI e tem-se espalhado rapidamente. Outras pragas são esperadas, e os efeitos das alterações climáticas secas mais longas, temperaturas extremas agravam a vulnerabilidade dos pinhais.


A segunda é económica. A concorrência de pinhões de espécies diferentes, provenientes da China, Paquistão, Rússia e Coreia, pressiona os preços para baixo e confunde o consumidor. Muitas vezes vendidos como "pinhão" sem distinção de espécie, estes produtos são significativamente mais baratos mas também de qualidade inferior. A ausência de uma DOP aprovada dificulta a diferenciação no mercado.


A terceira é cultural. À medida que as doceiras tradicionais envelhecem e as receitas deixam de ser praticadas, o pinhão perde o seu contexto gastronómico local. Sem as pinhoadas, sem as receitas de família, sem os festivais gastronómicos, o pinhão torna-se apenas uma commodity e perde a história que o torna único.


O que pode mudar: o pinhão como produto premium do Alentejo premium


Se a Comporta é o destino de luxo, se o vinho alentejano é reconhecido internacionalmente, se o azeite do Alentejo ganhou o mundo porque é que o pinhão de Alcácer do Sal não pode fazer o mesmo percurso?


Todas as condições estão reunidas. O produto é escasso e de qualidade mundial. A região está a viver um ciclo de investimento e visibilidade sem precedentes. Existe já um pedido de DOP em curso. E há uma história extraordinária para contar do pinhal manso mais extenso da Europa ao ouro branco que sustentou navegadores e que hoje alimenta a alta gastronomia mediterrânica.


O que falta é, talvez, o que faltou durante séculos: que alguém olhe para Alcácer do Sal e veja, além do castelo e do rio, a riqueza que nasce silenciosamente nos seus pinhais. O pinhão de Alcácer do Sal não precisa de ser inventado. Precisa de ser revelado.


Onde provar pinhão em Alcácer do Sal


Quem visitar Alcácer do Sal pode provar pinhão em vários contextos. As pastelarias e mercearias do centro histórico vendem pinhoadas e outros doces tradicionais com pinhão. Restaurantes como o Estrela do Sado e A Escola incluem pratos com pinhão nos seus menus. A Mercearia Alcázar, na margem sul do rio, oferece produtos regionais que incluem pinhão local.


Na Mansão do Passeio, centro empresarial e cultural instalado num edifício histórico na Rua 5 de Outubro, os eventos de networking e workshops culturais incluem frequentemente degustações de produtos do concelho e o pinhão é presença regular. O espaço, que sedia mais de 10 empresas de áreas como turismo, consultoria e tecnologia, funciona também como ponto de ligação entre quem quer conhecer o melhor do concelho e quem o produz.


Para quem quer levar pinhão para casa, a opção mais autêntica é comprar directamente a produtores locais, nos mercados e feiras do concelho. O Mercado Municipal de Alcácer do Sal, atualmente em processo de requalificação pela câmara municipal, é tradicionalmente um dos pontos de venda mais procurados.



Sobre a Mansão do Passeio


A Mansão do Passeio é a sede empresarial de prestígio do Alentejo um edifício histórico do início do século XX em Alcácer do Sal que oferece escritório virtual com morada fiscal desde 35€/mês, gabinetes privados, sala de reuniões e espaço de eventos. Sedia empresas que escolheram estar no coração da região que produz o melhor pinhão do mundo.


bottom of page