António Paiva, pela memória de Luísa Paiva
- Catarina Lopes
- 11 de jun.
- 5 min de leitura
Há vidas que permanecem gravadas na pedra das cidades. Outras permanecem na memória das pessoas. O percurso do escultor António Paiva pertence às duas dimensões: a das obras que resistem ao tempo e a das histórias humanas que continuam a ser contadas por quem com ele conviveu.

Para compreender verdadeiramente esse percurso, talvez seja preciso começar por algo simples: a forma como via o mundo. A sua filha, Luísa Paiva, descreve-o com uma palavra que explica muito do que foi a sua vida e a sua obra. “Ele era um humanista.” Mais do que uma definição intelectual, era uma forma de estar, uma curiosidade consta
nte pelas pessoas, pelas suas histórias e pela vida quotidiana.
António Paiva não era alguém que se limitasse a círculos culturais ou académicos. Pelo contrário, sentia-se confortável em qualquer conversa. Como recorda Luísa, “não era uma pessoa que procurasse apenas uma elite intelectual”. Gostava de falar com todos, de ouvir histórias, de observar gestos e comportamentos. As conversas deambulavam por distintos temas, enquanto percorriam incontáveis horas, o seu interesse pelo mundo era genuíno.
Esse olhar começou-se a formar muito cedo, na infância passada em Alcácer do Sal e na quinta da sua família. Ali, no ritmo tranquilo da vida rural, desenvolveu uma capacidade de observação que nunca o abandonaria. Luísa recorda que o pai era “extremamente observador”. Pequenos acontecimentos podiam prender-lhe a atenção durante muito tempo. Se um animal estivesse a nascer ou se algo inesperado acontecesse no campo, ele parava para ver, para compreender e para sentir aquele momento.

Essa sensibilidade acabaria por encontrar lugar na sua escultura. Sempre que não estava a responder a encomendas específicas, regressava naturalmente às figuras que conhecia desde a infância: trabalhadores do campo, animais, gestos simples do quotidiano. Eram imagens profundamente humanas, nascidas de uma memória afetiva que nunca desapareceu.
Mas a arte, para António Paiva, nunca foi apenas um trabalho. Era a própria vida. Em casa, recorda Luísa, não existia uma fronteira clara entre o artista e o homem. Criar fazia parte da sua forma de existir. “A vida era o trabalho e o trabalho era a vida”, diz, lembrando a forma natural como o pai encarava o ofício.
Apesar dessa dimensão quase orgânica da criação, o escultor mantinha uma disciplina impressionante. Levantava-se cedo todos os dias e dirigia-se ao ateliê nas Janelas Verdes ainda pela manhã. Havia uma razão muito concreta para isso: a luz. “A luz da manhã era excelente para a escultura”, explica Luísa. É nesse momento do dia que os volumes se revelam com mais clareza, que as sombras desenham as formas e permitem perceber verdadeiramente a matéria.
Os primeiros raios dourados e o silêncio interrompido pelo cantarolar dos passarinhos era sagrado. Esse momento pertencia exclusivamente a ele e ao trabalho, um espaço de concentração profunda onde dificilmente algo interferia. No silêncio do ateliê, passava horas a trabalhar as formas, a transformar pedra e matéria em figuras que lentamente ganhavam presença.

À tarde, o ritmo mudava. Quando não estava a dar aulas na escola de Belas Artes, surgia a outra dimensão da sua personalidade: a do convívio. António Paiva apreciava as longas tertúlias, encontros onde a conversa se prolongava entre arte, política, humor e histórias de vida. Era, recorda Luísa com carinho, “uma pessoa divertidíssima”.
Por trás desse humor existia também uma grande sensibilidade humana. Era alguém profundamente empático, capaz de perceber rapidamente o estado de espírito das pessoas à sua volta. Observava muito. Gostava de olhar para o mundo como quem lê um livro aberto. Às vezes bastava sentar-se à janela de casa e observar a rua. As pessoas passavam, e ele começava a imaginar histórias: para onde iam, de onde vinham, o que poderiam estar a pensar naquele momento.
Essa curiosidade pela vida alimentava também a sua criatividade.
As amizades artísticas faziam parte dessa energia. Viagens, encontros e experiências partilhadas marcaram muitas fases do seu percurso. Quando recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar em Itália, a viagem acabou por transformar-se numa aventura coletiva. Como conta Luísa, foi realizar o seu trabalho de investigação, mas “levou a trupe toda”. Entre estudo, descoberta e amizade, a experiência acabou por refletir aquilo que sempre foi: alguém que vivia a arte em comunidade.

Apesar do reconhecimento que foi alcançando ao longo da carreira, António Paiva manteve sempre uma relação muito simples com a ideia de sucesso. Não era algo que procurasse. O que verdadeiramente lhe importava era a consistência do trabalho. Acreditava que, se esse trabalho fosse “continuado, sério e consistente”, o seu valor acabaria por se revelar com o tempo. Essa postura refletia-se na sua relação com a autoria: António Paiva nunca assinava as suas obras, recusando qualquer protagonismo que desviasse a atenção do essencial, o próprio trabalho artístico.
Os contextos históricos também influenciaram o seu percurso. Nos anos que se seguiram à revolução de 1974, o país atravessava um período de transformação profunda e as encomendas públicas tornaram-se mais raras. Muitos artistas passaram então a criar por iniciativa própria.
Foi nesse período que surgiram muitas esculturas de menor dimensão. Em vez das gra
ndes obras destinadas ao espaço público, começaram a aparecer peças mais pequenas, muitas vezes entre quarenta centímetros e pouco mais de um metro. Para a filha, essas
esculturas têm uma energia muito particular. “Eu adoro essas peças”, diz, lembrando a liberdade criativa que nelas se sente.
Algumas exploravam temas inesperados. Uma delas chama-se A Fífia. Representa três músicos, e a cena sugere um momento divertido: o músico do meio parece ter desafinado, enquanto os outros o observam com uma mistura de surpresa e reprovação. Talhadas diretamente em bloco de mármore, essas esculturas revelam um lado mais leve e espontâneo da sua criação.

Talvez seja precisamente por isso que continuam a tocar quem as observa. Foram feitas sem encomenda, sem pressa, apenas pela vontade de dar forma a uma ideia.
A história de António Paiva também se cruzou com momentos complexos da história portuguesa. Proveniente de um meio ligado ao período do Estado Novo, viveu décadas de mudanças profundas no país. Com o passar do tempo, alguns artistas associados a esse contexto acabaram por ser menos referidos no discurso cultural.

Luísa recorda ter lido recentemente um texto que descrevia bem esse fenómeno, referindo a existência de “formas discretas de esquecimento”. Não se trata de censura direta, mas de um silêncio lento que, ao longo dos anos, pode afastar certos nomes da memória coletiva.
Mas a memória humana tem caminhos próprios.
Quando o nome de António Paiva surge em conversas com antigos alunos ou pessoas que com ele conviveram, a reação continua muitas vezes marcada pela emoção. Muitos lembram-se não apenas do escultor, mas do homem, curioso, atento, generoso e profundamente interessado na vida à sua volta.
Para Luísa, a herança mais importante que recebeu do pai não foi apenas artística. Foi sobretudo uma forma de olhar para o mundo. António Paiva era, diz, “uma pessoa muito luminosa”. Alguém que acreditava na vida, que procurava sempre encontrar soluções, que enfrentava os problemas sem perder a esperança.
Talvez seja por isso que a sua presença continua a ser sentida.
Porque algumas pessoas deixam obras. Outras deixam uma forma de viver.
Até hoje não temos conhecimento de todas as suas obras, ele assim quis, mantendo acesa a chama da curiosidade com cada nova obra descoberta, uma das muitas assinaturas que deixa no tempo.

